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Kasabian: As pessoas, os lugares e a música que nos fez – Leicester Mercury

O guitarrista e compositor Sergio Pizzorno contou ao jornal regional britânico, Leicester Mercury, sobre as pessoas, a música e os locais que fizeram ele e o Kasabian se tornarem quem são, além de quão especial é fazer parte da história da cidade de Leicester. A matéria foi publicada em 27 de maio de 2016.

Chuck Berry
“Minha primeira grande memória de ouvir e amar a música é do meu pai tocando para mim Johnny B Goode, de Chuck Berry. Eu devia ter cerca de seis anos, e é a minha primeira memória de sentimento “wow”. Me lembro de ouvir o som do solo da guitarra e a voz dele e eu adorei isso. Eu não conseguia parar de me mover. É essa inocência quando você é uma criança e você só quer dançar. Nada pode impedir o seu corpo de se envolver. Meu pai ouvia blues e os Stones, então eu meio que cresci com tudo isso.”

5HQ records
“A próxima grande coisa significativa para mim foi o início da cena rave da década de 1990 nos Midlands. Havia um lugar chamado 5HQ, uma loja de discos na cidade próximo a Humberstone Gate, Yeoman Street, nessa área. Era uma espelunca bem velha e assustadora. Eu era muito jovem para ir para essas raves ilegais, mas eu amava a música. Aquela cena era forte e foi o que me fez querer fazer batidas. Eles não iriam dar panfletos para menores de 18 anos, então eu fazia meu pai pegá-los pra mim, e minhas paredes foram cobertas com eles: Top Buzz, Fantazia, Grooverider… eu amava. Isso foi uma grande parte do que me fez querer fazer música. Eu não tinha idade suficiente, mas era tão romântico para mim, a ideia de pessoas indo aos campos para as raves. Era uma cena típica, com os gorros e apitos e tudo isso.”

Britpop
“Éramos adolescentes, a idade perfeita, quando o Britpop explodiu. Tivemos Pulp e Oasis e Blur e era como se fossem todos nossos. Isso é o que senti. Britpop para mim abriu a porta para os grandes como Led Zeppelin e The Who e The Stones de novo e então, através deles eu descobri ainda mais bandas, como Silver Apples. Eu queria continuar indo mais fundo. Isso foi o que me fez querer tocar guitarra. Como muitas crianças naquela idade, eu tinha um songbook do Oasis (livro impresso com tablaturas e/ou partituras instrumentais) e foi assim que eu aprendi a tocar. Não foi através da escola. Acho que tirei um E na GCSE (Qualificação acadêmica obtidade em uma matéria especifica) de música. Eu era o garoto a quem foi dada a guitarra com três cordas, as boas guitarras foram para as crianças que podiam tocar. Eu não queria aprender Kumbayah. Eu queria aprender Never Mind The Bollocks. Foi tudo faça-você-mesmo. Era bem como aconteceu na época, acho. Como a rave, até o Britpop. Foi fazendo por mim mesmo.”

The Shed
“Nosso primeiro show foi no The Shed, um show acústico, e nós tocamos seis músicas. Eles nos amaram no The Shed, porque sempre trazíamos muitas pessoas com a gente. Você ganhava um show se você conseguisse vender cerveja, então a gente lotava. Depois do primeiro show, nós tínhamos uma música e todo mundo saiu cantando. Eu ouvi na escola que as pessoas estavam cantando no ônibus no caminho pra casa. Nós então pensamos que estávamos no caminho certo.”

The Shed

Big Wheel Studios
“Ensaio era no Big Wheel studios da cidade. Tivemos uma sala lá e nós praticávamos religiosamente, passando horas e horas lá apenas sonhando em fazer isso. Esse lugar é uma grande parte da nossa história. Era perto de um pub chamado The Fountain, um dos lugares mais assustadores que você já viu em sua vida. Nós tínhamos cabelo comprido e ter cabelo comprido não era uma grande ideia por lá. Nós não bebíamos no The Fountain. Deus, não. Nós não arriscávamos. Nós costumávamos beber 20/20 na sala da banda.”

The Charlotte
“The Charlotte foi um grande lugar para nós. Nós fizemos um show para o Leicester Mercury lá e eu me lembro bem, pois nós ganhamos um review de Dave Davies. Ele era um cara meio sarcástico, tipo, ele não costumava ser muito cortês com bandas. Estávamos todos esperando para ver o que escreveu. Nós compramos o Mercury no dia seguinte e ele até que foi gentil conosco. Foi ok, nada brilhante, mas ok. E vindo dele, foi bom. O Mercury nos lembrou que estávamos crescendo. Toda vez que víamos nosso nome impresso era incrível. Meu pai guardava todos os papéis, até mesmo quando estávamos só em listagens. Ainda assim era incrível. A segunda vez que tocamos no The Charlotte teve um enorme tumulto e o show foi cancelado. Eu me lembro de Andy (Wright) nos dizendo que naquele momento soube que seríamos grande. “Só bandas que vão ser grandes causam tumultos”, ele disse.”

Uma fazenda, em algum lugar em Rutland
“Ah, a fazenda em Rutland. Eu não vou dizer onde ela fica para não estragar a magia, mas era uma fazendo em Rutland com esse cara maravilhoso, George Renner. Nós tínhamos assinado contrato e não tínhamos muito dinheiro, mas conseguimos alugar esse cômodo lá. Uma gratidão enorme por ele ter cuidado de nós. Era uma antiga fazenda de gado leiteiro que nós convertemos em um lugar para ensaio. Nós dormíamos em um cômodo em colchões, todos nós. Isso moldou a banda, ficar lá. Nós éramos como foras da lei, longe da sociedade, apenas existindo em nosso pequeno mundo. Era insano o que costumávamos fazer por lá; estilo Wicker-Man, sabe. Era brilhante. Então sim, George Renner precisa ser mencionado porque ele é uma pessoa maravilhosa e uma grande parte do porquê nós ainda estamos aqui.”

Leicester
“Crescer em Leicester é uma parte enorme do que nos fez ser quem somos. Temos nossas famílias e muitos amigos próximos, pessoas com quem crescemos junto e que conhecemos desde que éramos crianças. Nunca poderíamos sair da cidade. Todos vão direto para M1 assim que assinam contrato. Nós realmente nos perdemos em Londres por seis meses mais ou menos, mas logo voltamos para casa. Nós queremos estar com nossas famílias, nossos melhores amigos. Leicester é incrível. Realmente pareceu por um curto período de tempo que nós éramos o centro do universo. E o velho Mark Selby vencendo no bilhar – que grande façanha.”

Filbert Street
“Tocar em Filbert Street teria sido um sonho. Em algum momento, se eu tiver dinheiro suficiente, eu vou reconstruí-lo tijolo por tijolo. Tocar em King Power vai ser incrível. Isso é histórico, não é? Só de falar sobre isso, relembrando, isso te faz pensar. Essas crianças que cresceram numa chamada cidade de merda na Inglaterra, se conheceram na escola, começaram uma banda, e saíram para conquistar o mundo com seu jeito estranho e único; foram a atração principal do Glastonbury, um show em casa num campo no centro da cidade para 50 mil pessoas. Isso já tinha sido suficiente pra nós, mas aí aquele time de futebol vai e ganha a Premier League. Algumas semanas depois, aquela pequena banda e aquele pequeno time se encontram e fazem isso. É tão incrivelmente perfeito. Nós queríamos um lugar para as pessoas irem celebrar. Eu tenho muitos amigos próximos que torcem pelo Leicester há anos que não puderam ir ao jogo do Everton. Se você não conseguiu, então talvez nos ver seja o melhor a fazer, e aí você vai poder gritar até seu coração saltar pela boca.”

Victoria Park
“Victoria Park, fazer aquele show em 2014, aquilo foi intenso. E então tocar novamente na parada do Leicester City foi inacreditável também. Apenas olhar para aquele mar de gente de azul foi incrível. O que foi interessante foi que provavelmente muitas pessoas ali nunca tinham visto a gente. Foi maravilhoso ver o rosto de todo mundo. Foi um grande dia, sabe. Meus filhos foram ao palco, o que normalmente não acontece. Eles estavam amando aquilo. Foi um momento bonito. Isso é que é realmente excitante para mim, a próxima geração. Nós não devemos mais ser a cidade pobre coitada. Se você tem visto o que tem acontecido aqui, você pode ver que tudo é possível. Você pode estar em uma banda. Você pode jogar futebol. Você pode vencer a Premier League. Você pode ser um diretor de cinema, ou um carpinteiro, ou qualquer coisa que você queira ser. Ser uma criança no Victoria Park depois da parada, acho que isso te ajuda a acreditar. Estar no palco e olhar em volta, nós fomos praticamente esmagados por tudo aquilo. É um absurdo a quantidade de coisas pra assimilar, sabe. Nós estávamos lá com pessoas que estavam por baixo por 25 anos. Muito aconteceu durante esse tempo. Isso traz todos os tipos de memórias – membros da família, avós, antigos amigos. Foi emocionante. Olhar para aquela quantidade de pessoas, você percebe que você faz parte da história. Isso é muito, muito especial.”

Fonte: leicestermercury.co.uk

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